Giovanna Cóppola

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

No Bar

Trilhando um caminho único pelas ruas das pequenas cidades
ela deixa sua silhueta por onde passa
virando à esquerda ou à direita, ou seguindo reto, indo para longe.
Sento-me à mesma mesa, no mesmo bar
o garçom me serve a mesma bebida
e eu não consigo manter minhas mãos longe de confissões de papel.
Há muitas milhas entre nós, assim como dias para eu vê-la novamente.
Somente a paciência – ou até mesmo um Visa – poderia encurtar essa distância.
E os dias? Insistem em não passar.

Eu sinto sua falta como um cego sente a falta do sol
que pode senti-lo em sua pele, mas não pode alcançá-lo.

A bebida está em liquidação para, quem sabe, uma conversa com o meu fígado.
Estes cigarros estão queimando buracos em meus pulmões
abrindo o resto que resta de mim para que eu possa extravasar as razões pelas quais eu sinto falta das nuances de seu sorriso.

Três horas por noite quando a recepção é boa.
O tão planejado plano nunca parece ser suficiente.

Quero sua voz para engolir-me trinta horas por dia.
Meus ouvidos estão famintos sem você para alimentá-los.
Eles estão querendo o sushi da mais alta prateleira de sua loja
bem mais que o conveniente fast food dos extras de um filme.

Quem quer discutir o clima e aquele bla bla bla de sempre para passar o tempo?

Você é um concerto dos Beatles em um mar de bandas de garagem.
Deixe-me surfar em sua multidão
enquanto o resto do mundo compra camisetas pretas
e CDs queimados em iMacs.

Você me faz querer falar profundamente
e escrever como estadistas que fazem minuciosamente suas anotações
e preparam seus discursos finais para seus funerais.

Carregue minha prosa em suas mãos
para que eu saiba que não estou desperdiçando meu tempo.
Abençoe meus comuns versos
transforme meu sangue-tinta azul com sua sinceridade
e nós vamos construir quilômetros de palavras.

Meus vizinhos no bar discutem relatórios policiais.
Não me deixe nunca ser assim maçante.

Encha meus pulmões com palavras honestas
e fiéis histórias sobre eu e você visitando países
cujos nomes as pessoas só conhecem das aulas de geografia.

Nos meus últimos dias
enrugada e terminantemente esquecida
vou me lembrar de uma mulher que dançava como um truque mágico
que faria David Copperfield ter inveja.

Pego minha carteira e deslizo para fora um cartão para pagar minhas verdades.
O garçom fica com 20 reais, uma nota fiscal de 12, e eu fico com 6 páginas de poesia.

Venha até mim e eu serei sua por milhas e milhares de minutos
e todas as manhãs lhe vou perguntar: como o seu sol nasce?
O meu nascerá sempre devagar e brilhante.
Diga-me o que te persegue, e farei o mesmo.

O garçom derrama meu último drinque
e eu tento me lembrar de coisas para sonhar
mas elas acabam fugindo e me deixam novamente esperando por você.

terça-feira, 28 de julho de 2009

Quisera Eu

Quisera eu ser a tua amada, a tua amante.
Alguém que te afague, que te encante.
Quisera eu, nas noites serenas, ter tuas pernas e tuas penas.

Quisera eu, que te amo tanto, ter calma e não languidez.
Quisera eu não ter minha boca de beijos mudos.
Quisera eu, com minhas mãos, pálidos veludos, traçar gestos com rapidez.

Quisera eu, que tão mal me conheço,
ter uma alma menos trágica e doente,
que em gargalhadas ásperas de demente,
se esconde por trás do vento e ainda ri pela vida afora.

terça-feira, 14 de julho de 2009

Afora o Teu Amor

Afora o teu amor,
para mim,
não há mar,
e a dor do teu amor nem a lágrima alivia.
Afora o teu amor,
para mim,
não há sol,
e eu não sei onde estás e com quem.
Mas a mim,
nenhum som importa,
afora o som do teu nome que eu adoro.
E não me lançarei no abismo,
e não beberei veneno,
e não poderei apertar na têmpora o gatilho.
Afora o teu amor,
nenhuma lâmina me atrai com seu brilho.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Espetáculo

És um espetáculo
que nunca sai de cartaz.
És dividida em vários atos,
e eu sou a única na platéia a acompanhá-los.

Não importa qual palco utilizes,
menos ainda o valor do ingresso,
e menos ainda se as cortinas são de seda.
Mergulho, sem medo, de cabeça, no que desconheço.

Assisto a um monólogo onde você me indica o caminho.
Você é o caminho.

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Enquanto Penso Nela

Enquanto Bukowski me diz
que o amor é um cão dos diabos,
penso nela.
Ele tem razão quanto ao diabo,
ainda não sei bem sobre o cão.
Viro as páginas e penso nela.
Olho ao redor,
ela não está
e penso nela.
Estranho pensamento que não sai
dela.
As pessoas passam pela rua
enquanto as observo pela varanda
e penso nela.
Escrevo essas mal acabadas linhas
enquanto penso nela.
Acabada sou eu
sem ela.
Vou ao banheiro,
escovo os dentes e deito sozinha na cama
vazia
sem ela
e sigo pensando nela.
Adormeço.
Não tenho certeza, mas acho que sonharei com ela.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

O Meu Amor

Amor tira o fôlego, tira o sossego, tira as noites de sono, tira o tino. Amor é um tomador de terras desavisado, violento e certeiro. Amor é palavra estranha que não rima com sossego.
Há amores que achegam-se a rotina, viram coisa vazia, falta de desejo, quase nada, beijo barato, mão largada. É qualquer coisa jogada no canto da sala, que se manuseia vez ou outra para que não junte pó.
O meu amor é sem medida, sem precedentes, razões ou significados profundos, somente um arfar misturado ao nome dela que me submete a uma viagem sem volta.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Nas Entrelinhas

Quando me perguntam como eu aprendi essa ou aquela coisa, eu digo que não sei. Quando me perguntam como eu pretendo garantir o meu futuro, eu digo que não sei. Quando me perguntam por que motivo eu não me dedico àquele dom ou não desenvolvo aquela habilidade, eu digo que não sei. Quando me nego a converter meus sentimentos em reais, antes mesmo de torná-los reias para mim, compreendo uma das inúmeras e fascinantes partes que moldam meu caráter. Quando não sinto o ego inflando ao ouvir esse ou aquele elogio, tenho a certeza de que não sou um gênio, apenas exteriorizo minhas necessidades em formato não convencional, criando, então, aquilo que as pessoas aprenderam a chamar de arte.

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Sonhando

Sempre sonhara com os olhos fechados, na escuridão, até perceber que os melhores sonhos são aqueles que ela tem quando acordada, enxergando perfeitamente a felicidade.

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Bolero

Hoje a festa é para mim. Todas as falas, risos e perfumes foram delicadamente pensados, minuciosamente caprichados. Cada canto, um encanto; cada som, um significado. Após a meia noite, aquela música preferida, bolero de um tempo vivido, mantido sob cinzas, brasas não ainda esquecidas, cujas fagulhas reascendem, para a primeira dança convida. Nesse ritmo, o tempo se perde, e com ele nos esquecemos de tudo. Tudo ao redor se infesta na festa dos nossos suspiros, de nossos passos cadenciados, apaixonados, acalourados, atrevidos. Minha e tua vontade se misturam. Nem sei se navego ou flutuo em teu braços. Teu cheiro seduz e nos conduz, enfeitiçadas, fundindo nossa raiz, em mais um bolero a meia luz.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Agora

E se essa noite fosse só nossa? E se eu tivesse teus olhos ao alcance dos meus? E se eu pudesse te tocar, sentir teu cheiro misturado ao meu, tua língua na minha, tua pele queimando em meu corpo? Derreteríamos nossa acidez, saciaríamos nossos mais loucos desejos. Te daria o céu na terra, tanto amor, quimera. Congelaria o tempo em nosso momento eterno. Quero-te profundamente, quero-te corpo e mente. Agora.

domingo, 19 de outubro de 2008

Recordo

Estou fechada no meu quarto
Lá fora está a chover
Guardo-te no meu interno retrato
Ouço meu coração bater

Estou fechada no horizonte
Sobre mim está a luz da terra
Dentro do ar, a estrela e a fonte
Diante de nós, a derradeira esfera

Um ponto de nada
Um espelho, um tesouro
Recordo-te em mim tão bela
Toda a magia desse olho
Toda tu, linda donzela

Um ponto brilhante queima-me o sonho
Porque recordo que te conheço
Recordo o abandono
Recordo que não te esqueço

terça-feira, 7 de outubro de 2008

A Dança

- Concede-me esta dança? - Perguntei, enquanto estendia minha mão na direção daquela bela donzela.
Ela se virou e me reconheceu. Com um sorriso nos lábios, pegou na minha mão enquanto eu a guiava. Nós éramos as únicas naquele recinto - minutos atrás, lotado -, e parecíamos ser também as únicas em toda a cidade.
Uma suave melodia começou a tocar e as luzes foram esmaecendo. Eu me virei para encará-la e puxei-a para perto de mim. Ela posicionou seus braços em volta do meu pescoço enquanto eu fazia o mesmo em sua cintura. Começamos a dançar e fomos girando, girando, explorando cada centímetro do chão com nossos pés incontestavelmente entregues àquela doce cadência tão bem ritmada. Novamente ela sorriu, enquanto ouvíamos aquela música tocando paralelamente às batidas dos nossos corações, como se estivéssemos dançando em uma nuvem particular.
A canção lentamente foi chegando ao fim.
Minha mão suavemente ergueu seu rosto, enquanto eu olhava profundamente em seus olhos. Ela sorriu, desta vez como quem pede algo em troca. Eu sorri de volta e beijei seus doces lábios. Lentamente me afastei, deixando-a sem ar.
Parecia um sonho.
Ela sussurrou em meu ouvido: "É um sonho."
Eu sussurrei de volta: "Não tema. Que essa dança permaneça intacta."

Nunca acordei.

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

A Ingratidão do Poeta

A maior ingratidão do poeta é sua obra. O que ontem ele idolatrava, hoje ele repudia. Palavras, que outrora lhe valiam mais que tudo, hoje são vãs. Suas mal traçadas linhas o traem dia após dia, sua obra envelhece, é ingrata e delicadamente perecível. Sua criação o trata com desdém agora que já foi expelida e não mais pode transmitir seus sentimentos. A obra engana o poeta, é desleal e pérfida. O poeta arranha a vista quando revisita suas dores passadas. Restam as presentes e as futuras. O poeta, ainda, resgata a força de suas entranhas e faz com que nasçam miúdos seres ingratos diariamente. Para o poeta, a ingratidão é vital.

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Prece

Hoje eu queria não ter sonhado com você. Hoje eu queria não ter dito adeus ontem. Hoje eu queria tomar para mim toda a dor do mundo na esperança de amenizar aquela que te causei. Arrependo-me de cada palavra rude, de cada frase infundada. Algumas coisas, quando ditas, não podem ser tomadas de volta. Hoje eu queria sentir um abraço forte, aquela coisa sua que ficou em mim. Hoje eu queria sentir novamente seu sorriso tímido perto do meu, nem que fosse somente por instantes. Hoje eu queria dizer menos e poder fazer mais. Hoje eu não queria estar presa ao presente, nem rebuscando sensações no passado, nem pensando no futuro. Hoje eu quero pensar em nada. Que me arranquem do peito qualquer resquício de sentimento. Que me arranquem da memória a tua lembrança. Que me confrontem com a realidade para que eu coloque meus pés no chão. Que eu seja pega de surpresa por uma coisa ruim, que eu sinta medo, para que aprenda a sentir menos. Que meu coração seja pedra. Que eu não exista, somente por hoje. Que minha prece seja atendida. Amém.

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Essência

Tens a forma de um quadro pintado a esmo por mãos carregadas de paixão. Tens tamanha capacidade de despertar em mim emoções outrora submergidas em água densa e profunda. Tens um jeito que é so teu de me tirar o medo e carregar para longe, num olhar que concentra a ironia e a ousadia na medida certa a fim de me desvairar. No mesmo olhar, habita uma espécie de malha resistente e macia, que rebate sentimentos funestos e sem mérito de pessoas tão alheias à realidade do nosso amor. Tens, no sorriso, um brilho a mais. Tens tanto, tanto quanto o que eu ainda não descobri.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Tentação

A vida é breve. Quase morri num segundo, achando que o tempo fosse inesgotável, quase me tomaram os sentidos enquanto eu insistia em deixar de sentir. Que me levem tudo, menos os sentidos! Prefiro a ousadia do agora do que a delicadeza da espera. Prefiro a invasão à permissão. Prefiro o assédio ao tédio. Assustei meus medos quando disse que os enfrentaria. Enquanto me olhas com este olhar de interrogação, mata tua curiosidade e nos faz exclamação. Sou capaz de resistir à tudo, menos à tentação.

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Perdoa

Perdoa minha covardia e minha fraqueza. Perdoa, também, minha franqueza. Perdoa meu medo de me entregar, perdoa minha insegurança. Perdoa se minha voz é trêmula e quase nula ao teu lado, perdoa se teu sorriso ofusca minhas atitudes. Perdoa cada milésimo de segundo que te fiz sofrer. Perdoa as palavras que guardei para mim, com a ilusão de que você não as queria mais. Perdoa se sinto muito e falo pouco. Perdoa, meu amor. Perdoa se te amo calada.

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Saudade

Amor moribundo, profundo.
Choro profundo, imundo.
Saudade imunda, inunda.
Desejo inunda, aprofunda.
Confundo.

Teu nome proclamo, chamo.
Enquanto chamo, reclamo.
Saudade reclama, profana.
Busca profana, afana.
Amo.

Sentimento covarde, me arde.
Pavor me arde - retarde.
Ainda não é tarde.

terça-feira, 26 de agosto de 2008

O Homem

Um homem sem nome e sem estudo, um homem sem moral e sem ideal, um homem sem sonhos, sem amparos, cercado de desgostos e de futuro raso e raro. Um homem sem RG, um homem cujo papel não provém da TV, um homem que não é mocinho e nem vilão, um homem sem escolha e sem controle da situação, um homem simplesmente inserido na sociedade que reprime e esmaga suas vontades. Um homem descamisado, rejeitado, lixo personificado. Um homem desengravatado, esse mesmo, aí do seu lado. Você, sentado no seu carro com banco de couro, porta-copos, porta-revistas e porta-futilidades, ganhando seu dinheiro, por Deus abençoado. O homem não quer dinheiro, o homem não quer carro importado. O homem só quer ser homem. O homem só quer ser humanamente tratado.

domingo, 24 de agosto de 2008

Hei De

Cedo ou tarde, meus olhos aprenderão a não mais buscar os teus. Sonhos hão de ser apenas sonhos. Hei de esquecer o que é chorar por você. Hei de não mais embriagar-me com o teu cheiro. Tua voz, doce fortaleza, transcendental, há de não mais ser música boa para os meus ouvidos. Hei de oferecer resistência a cada gesto contraditoriamente fortuito e calculado. Com esmero, hei de sobreviver.

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Giovanna Cóppola
São Paulo, SP, Brazil
Alma arrancada do prazer do mundo, alma viúva das paixões da vida. Assim disse Augusto dos Anjos.
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